Longe demais das capitais
Poderia ser Paris 120 km. Ou Londres 52 km. Até Brasília 230 km. “Buenos Aires 100 km” fala sobre a falta de perspectiva e a falta de anonimato, abundantes (será?) em cidades maiores. A questão é a referência. Tem gente que não se encontra em Tóquio. Ou NY. Ou São Paulo. Claro que no interior dos países isso se potencializa. O embate entre a necessidade e o desejo. Sobreviver ou sonhar? Continuar ou apostar? Há uma ilusão sobre as possibilidades da cidade grande (expressão de romance regionalista). A tentativa na “área artística”, tão cara aos sonhadores, é um exemplo. É difícil fazer sucesso morando em Catalão, da mesma forma que vivendo no Rio de Janeiro. A diferença é que, nas cidades cosmopolitas, artistas marginais são rodeados por intelectualóides que contribuem para estender um provável erro. Pq artista não nasce como manga no Cerrado. No interior empoeirado, sempre tem um bruto que diz pro “artista” largar mão de imaginar e pegar na enxada. Na maioria absoluta das vezes, o tosco faz um bem para o sensível. Evita que ele vá para o grande centro e, depois que a grana acaba e a realidade começa, passe a se prostituir, roubar e mendigar. As capitais mundiais são ótimas para quem tem talento de verdade. Para o resto, são legais de visitar e alimentar os talentosos. E não vejo muita diferença de importância entre carregar caixas de tomate em Nerópolis e escrever para jornal em Lisboa. Não vivo sem comer tomates. Já sem ler certos jornais...
Agora, a falta de anonimato realmente é um mal interiorano. O problema é que tem muita gente que sai do mato para ser “reconhecido” na capital. Ontem, voltando do cinema, pensei justamente nisto. Pq alguém quer freqüentar, sair na TV, ser visto? A beleza de San Francisco, por exemplo, é a absoluta falta de interesse que as pessoas têm umas pelas outras. Ninguém cruza um olhar com vc na rua. Passa por cima. Vc escorrega e cai no chão molhado em Chinatown lotada e ninguém cai na gargalhada. Nem te ajuda a se levantar. Enfim, sobre a perspectiva de vida, não sei bem o que isso significa. Não sei se estaria mais ou menos insatisfeito se estivesse fazendo outra coisa na vida. Penso que não. As pessoas se equivocam sobre certas atividades, que são aborrecidas como qualquer outra. Em qualquer lugar. Sobre o anonimato, é o que busco. Sempre. Ao lado de muito dinheiro.
Escrito por Pequiman às 16h52
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