Tristeza
Quem convive comigo sabe como reclamo do cotidiano, de acordar cedo, das pessoas, da vida, enfim. E tb sabe que não agüento comparações de sofrimentos, tipo “ah, vc tá reclamando de barriga cheia, olha o sofrimento dos outros”. Mas a gente muda, né? Espero que para melhor.
Anteontem, ao sair do trabalho para o almoço, lá ia eu reclamando do calor, sozinho no carro, pensando que o ar-condicionado só poderia estar estragado. Quando entrei na rua 88 (que sai da Praça do Cruzeiro em direção ao Serra Dourada), depois de passar pelo colégio Maria Auxiliadora, vi uma cadeira de rodas no meio da pista, sobre a faixa contínua, na direção contrária (ou seja, na subida). Sentado nela, um senhor por volta de 50 anos, sem acompanhante. Vinha sabe-se lá de que ponto da rua, naquela subida íngreme, sol a pino, no meio da rua (pq as calçadas no Brasil são absurdamente irregulares), correndo risco de ser atropelado (pq ali os carros ultrapassam, a saída da escola atrapalha, os ônibus não cabem em sua faixa pq caminhões são estacionados dos dois lados, principalmente na empresa de eventos da Valéria Junqueira). PQP! Eu reclamando do ar no meu carrinho novo e o aleijado, como se já não bastasse sua vida desgraçada, sozinho debaixo desse sol, levando sua cadeira na subida. E quando chegasse em casa (se é que a tem), não poderia nem tomar um banho “daqueles”, refrescante, sozinho. Ainda dependeria de alguém com paciência para passar uma toalha úmida no seu corpo.
Pode ser a idade. Ou apenas estou especialmente sensível nesta semana, pois fatos posteriores me balançaram ainda mais. Mas creio que não, pq aquela imagem não saiu da minha cabeça desde o momento em que a vi e me fez pensar muito. Mesmo antes das outras tristezas, comentei com a Kal sobre o meu sentimento. Escrevendo aqui, até me lembrei dos meses cadeirantes de Joss e de como eu ficava incomodado com as suas impossibilidades. Ao mesmo tempo em que me solidarizava, dizia para ele ficar tranqüilo, que ele voltaria a andar, apesar de tudo.
Não estou afirmando que não vou mais reclamar das “pequenas coisas”. Como disse, pode ser momentâneo. Mas que ando dando outros valores aos meus momentos, minhas pessoas, minhas conquistas, não há dúvida. Cada vez mais tenho certeza do meu projeto de vida, que se concretizará daqui a 20 anos.
... Nada há mais triste do que a decadência.
Escrito por Pequiman às 14h52
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