Jogão
“Offside” não muda minha opinião sobre o cinema iraniano, pois é um filme “universal”. O futebol não é uma metáfora para explicar a situação iraniana, por mais que insistam os intelectualóides. Não há os intermináveis planos-seqüência nem as panorâmicas do deserto, tão ao gosto do pessoalzinho do “cinema alternativo”. É um filme sobre futebol, para quem gosta de futebol. Mostra todos os tipos de emoção e situação que o esporte mais famoso do mundo proporciona: a paixão irracional; o esforço para ver o time; a homenagem ao amigo; a solidariedade; a compreensão; o compartilhamento do prazer e da dor; a loucura; a catarse; as lembranças; o desprendimento; a valorização do pouco que realmente importa; e mais uma porrada de coisas.
Quem nunca foi na quarta-feira à tarde a jogo de campeonato regional que não é do seu time; quem nunca enfrentou o sol das 15h de um domingo para estar na companhia de um amigo em jogo do time dele; quem nunca foi a jogo de torneio continental em dia útil à tarde e chupou picolé Via Láctea; quem nunca ficou debaixo de um toró, à noite, andando de um lado para o outro na arquibancada vazia e saiu com o time derrotado; quem nunca presenciou uma virada aos 47 do segundo tempo depois de estar perdendo por 2 a 0; quem nunca viu o Maradona jogar pela seleção argentina na Copa América; quem nunca foi a um jogo Amigos de Fulano x Amigos de Beltrano no carro de um saudoso amigo e na volta parou no bar e na boate, numa das noites mais marcantes da vida; quem nunca, criança, quarta-feira à noite, foi a Goiás x Rio Verde, no Serra Dourada e machucou assustadoramente a canela na cadeira, sendo tratado com picolé de limão pelo pai, na ausência de gelo; quem nunca, ainda criança, sofreu uma dor de barriga avassaladora, e o pai saiu catando jornal pelo caminho até o banheiro; quem nunca abraça o pai tão forte e sinceramente comemorando um gol no estádio, como em nenhum outro momento da vida; quem nunca se sente tão íntimo e amigo como em um jogo; quem nunca reforça seus laços em uma partida; quem nunca aproveitou o pré e o pós-jogo para conversar seriamente sobre a vida com o amigo; quem nunca leu “Febre de bola”; quem nunca respeita a dor do amigo na derrota do time dele; quem nunca foi a jogo da 2ª divisão do Goiano, no Durval Ferreira Franco, Novo Horizonte x Ceres, e xingou o time de fora de "bambi" pq o patrocinador era o Café Bambino; quem nunca... Quem nunca, não vá ao filme pq não vai gostar. Quem já, assista.
Escrito por Pequiman às 09h41
[]
[envie esta mensagem]
|