Blue eyes
Meu avô Jorge sempre frustrou as expectativas sobre sua morte. Quando as perspectivas eram as piores, ele se levantava. Nasceu com a revolução russa. Teve meningite aos 7 anos e foi deixado em uma cama para morrer. Viveu mais 84 anos, entre acidentes de trânsito, quedas de prédio, ataques cardíacos, platinas, pontes de safena, nicotina. Em um dos atropelamentos que sofreu, em São Paulo, era levado para a “geladeira” pelo enfermeiro, que deixou a maca escorregar por uma rampa, fazendo com que o impacto na parede o despertasse. Em sua recuperação da cirurgia do coração, eu dava banho. Desenvolvi uma das relações amorosas mais profundas de minha vida com meu vô, que em nada lembrava os estereótipos (verdadeiros) árabes. Generoso, mão-aberta, compreensivo. Nunca guardou dinheiro, gastava tudo. Foi muito pobre, estudou e virou juiz.
No sábado à noite, vô Jorge confirmou o que a gente esperava. Morreu. A última coisa que me disse, na sexta-feira, foi “vá feliz”. No sábado, nem quis aparecer pra ele, pq iria querer conversar e não conseguiria por causa da falta de ar. Pediu para que o enfermeiro o cobrisse, mas o calor estava forte. Para mim, foi mais um sinal claro. Quando alguém próximo morre, normalmente nos lembramos de algo que nos arrepende, como uma briga, uma palavra que não falamos ou um ato impensado. Eu não me lembro de nada que me faça arrepender. Nada. Ontem, antes de fecharem o caixão, me perguntaram se eu havia me despedido dele. Cara, eu estou me despedindo dele há quase um mês, todos os dias que o via no hospital. O funeral foi desnecessário para mim. É claro que queria viver mais com ele, mas o que vivemos foi excelente e completo. A saudade vem agora, quando eu quiser entrar na casa dele para cumprimentá-lo e isto não for mais possível.
Pessoas improváveis estão sentindo a sua morte, prova do quanto era querido. Os enfermeiros disseram que nunca desenvolveram uma relação tão próxima com um paciente, que ficava acordado durante o plantão deles, conversando e falando besteiras. Depois da morte dele e antes do enterro, só chorei no hospital. Não fico forçando lágrimas. Só voltei a chorar ao ver minha última foto com ele no blog do Joss, no último aniversário, em julho. E talvez agora. Como o chamava meu amigo Manolo, Dom Jorge restringiu ainda mais os poucos motivos de minha alegria.
Escrito por Pequiman às 13h53
[]
[envie esta mensagem]
|